“O ser humano tem que ser respeitado e seus direitos garantidos: isto se chama liberdade” – Entrevista com Josivaldo Barros

por Iury Aragão publicado 28/01/2021 11h24, última modificação 28/01/2021 11h24

 

 

#NovosVereadores


Após duas tentativas, a primeira em 2012 e a segunda em 2016, Josivaldo Barros foi eleito na terceira, em 2020. Com histórico de atuações em grêmio estudantil e como líder comunitário, ele usou essa experiência para compreender as demandas populares e entender que as pessoas querem ser ouvidas e, no fundo, buscam apoio e resoluções para sua vida cotidiana. Membro da Assembleia de Deus, tem a liberdade de culto como uma de suas principais bandeiras. Para ele, não importa a denominação, “o ser humano tem que ser respeitado e seus direitos garantidos: isto se chama liberdade”.

  

Qual seu histórico enquanto líder comunitário?

Já temos 20 anos em trabalhos na área social. Comecei sendo presidente de grêmio escolar e passei um tempo ajudando na escola pública. Interagia ali entre professores e alunos e, enquanto presidente de grêmio, levava as reivindicações, os anseios dos alunos e, consequentemente, trazia também o ponto de vista dos professores, e a forma que o professor ia ajudar. E também deixávamos claro que os alunos tinham direitos, mas também deveres.

Depois de um tempo como presidente no grêmio escolar, fui ser do conselho fiscal da associação de moradores do bairro São Gonçalo, de 2008 a 2010. Através da associação, pedindo às autoridades, conseguimos a cobertura da feira, do pátio, que até então não estava pronto. Conseguimos uma escola de ensino integral, que a princípio não seria integral, mas depois implantaram e hoje temos a Escola Evanira, que é estadual e fica entre o São Gonçalo, Rio Claro e Rio Corrente.

Como foi a decisão de ir para o legislativo?

Decidimos que eu seria candidato a vereador, pela primeira vez, em 2012. Já éramos cabo eleitoral de outros vereadores, e depois vimos a necessidade de termos um representante que pudesse correr atrás das demandas da comunidade. Só quem sente é quem sabe. Tivemos 632 votos na primeira vez. O que a gente sentia era uma dificuldade que os políticos tinham para com as pessoas. Primeiro, pegavam os votos e não voltavam para agradecer. E como não tínhamos representantes locais, eles pegavam os votos e iam embora. Depois dessa eleição de 2012, a primeira coisa que a gente fez foi pegar o carro de som e voltar na segunda-feira de manhã para agradecer o povo da zona oeste de Petrolina. Depois fomos às rádios, pois tivemos votos em toda Petrolina, também para agradecer. Além das visitas. Passamos uns três meses voltando por onde a gente tinha passado. Fizemos o mesmo processo em 2016 e, consequentemente, estamos fazendo também em 2020 e 2021.

Em 2012 tivemos 632 votos, éramos três candidatos no São Gonçalo, e fui o mais votado. Desde então comecei um trabalho. Vimos que o povo sentia falta do calor do líder, sentia falta da interação, do olhar no olho, do estar perto. Antes a pessoa vinha, pegava na sua mão, pedia o voto e tchau.

Então, a partir da vivência que você estava tendo, percebeu que o pessoal queria um líder, um líder próximo?

Queria alguém que não só o representasse, mas que parecesse com ele. Um líder que transitasse entre o povo e as lideranças. E temos feito esse trabalho. Tivemos a preocupação de sentarmos com as pessoas, com as lideranças, com as pessoas que representam diversas áreas da comunidade: clube de mães, associação de moradores, a liga de esporte. A gente conseguiu interagir com eles.

Qual é o seu perfil de liderança no São Gonçalo?

Somos evangélicos. Eu sou evangélico. Hoje, me vejo como alguém que além de representar o povo, me pareço com o povo. Um líder que senta pra tomar um café, que para pra conversar com as pessoas no meio da rua, que para pra ouvir. Escutamos tanto uma criança quanto um idoso. Estou perto das pessoas não só em tempo de política. Estou perto desde a hora do parto até a hora da morte. O líder não tem que estar perto só na hora do churrasco. Na hora da dificuldade tem que estar mais perto ainda. Por exemplo, oito dias depois da campanha, dia 22 ou 23 de novembro, faleceu a tia de uma amiga minha. Todo mundo tinha viajado para descansar. Quando foi 9h30 da noite, que me ligaram, fui pra lá. Perguntei como poderíamos dar apoio, como a gente poderia ser útil. Falaram “mas você é um vereador, devia estar dando uma descansada nesses 15 dias depois que acabou a eleição, já tá trabalhando?”. Eu disse que nunca parei. Nunca parei, pois a doença nunca avisa quando vem, e, quando vem, precisa dar suporte, precisa ter alguém que se preocupe. Dia 19 [de janeiro] fiz uma visita no Vivendas e uma das líderes da comunidade disse que admira esse trabalho, pois independentemente do tempo de campanha, estou perto, ouvindo as demandas, se estão atendendo direitinho na saúde, como está a limpeza da rua, se uma boca de lobo está quebrada. Temos esse olho clínico, que o morador precisava há muito tempo.

Você também tem um programa de rádio. Como é essa experiência enquanto comunicador?

Tenho um programa [Sintonia Gospel] na Tabajara FM e o foco é levar o evangelho. Por ser evangélico, entendo que o evangelho precisa ser levado às pessoas. O programa é das 22h às 23h. Louvores, pregação, ensino da palavra. A gente costuma interagir por noite de 1.000, 1.200, 1.300 pessoas. É um programa muito ouvido tanto aqui no Vale do São Francisco quanto fora.

Há pessoas nos assistindo nos Estados Unidos, em Portugal, Irlanda, Moçambique. Temos uma página e sempre tem gente de fora mandando convite. E a gente fica feliz, pois enquanto servo de Deus a gente tem sido útil em levar o evangelho. É um trabalho social também, quando liga alguém com o casamento praticamente destruído e depois que ouviu uma palavra do programa, depois que ouviu o ensinamento, aprumou o passo.

Você é da Assembleia, certo? Como é seu trânsito com outras denominações?

É bem aberto. Hoje participo de uma Assembleia de Deus, o meu pastor é Jailson Crispim, ele era o presidente da União dos Pastores. Então temos essa abertura de poder frequentar as mais diversas igrejas. Eu frequento do culto Batista à missa Católica. Estou sempre no meio do povo, interagindo. Semana que vem mesmo [semana de 25 a 30 de janeiro] estou fazendo visita ao bispo da cidade pra dizer a ele que estou à disposição, no que precisar da gente, estamos às ordens enquanto fiscal do povo, representante do povo. Temos essa interação. Tanto no mundo político quanto no mundo espiritual. Independentemente de religião, estamos junto do povo.

Você terá uma linha especial de atuação na Câmara?

Defendemos a liberdade de culto, que tem que existir. E temos visto no meio político algumas situações em que as pessoas querem dificultar essa situação, e estamos aqui para que, se houver alguma lei ou alguma coisa que venha interferir, a gente possa defender. E isso não só o culto do evangélico. Eu quero deixar claro isso. Se o espírita tem o direito de fazer o culto dele, ele vai fazer. Se o umbandista tem direito de fazer a reunião dele, ele vai fazer. O que a lei diz, vamos buscar cumprir, vamos pedir para que respeitem o que a lei diz. Em meio a diversas situações, vemos que às vezes o povo tem aquele problema de “ah, porque não é evangélico, não tem que ser atendido”. Eu tenho a mente muito aberta no sentido de respeitar as pessoas. O que a lei diz eu vou respeitar. O ser humano tem que ser respeitado e seus direitos garantidos: isto se chama liberdade. A liberdade de culto não é específica do evangélico, até porque não é só o evangélico que faz o culto. A pessoa do Candomblé, por exemplo, faz o culto também e a gente vai respeitar tudo.

Toda e qualquer religião terá liberdade de culto?

Sim. Tem que ser respeitada.

Você disse que trabalhou muito com a educação enquanto líder comunitário. Você tem pautas voltadas para a educação?

Já temos uma educação que melhorou muito. Porém, tá tudo resolvido? Não. Há muita coisa que tem que melhorar. Quando você tem a condição de estar trabalhando com jovens, você pode melhorar muita coisa. A situação de estar somente dentro de uma sala aula resolve o problema? Não. É por isso que você tem uma escola integral hoje que tem uma Educação Física incluída, tem várias matérias que acabam ocupando a mente do jovem, do adolescente, e acabam tirando ele de alguns vieses. Dentro da educação temos o esporte. Podemos juntar tudo e fazermos esse trabalho bem organizado. A dificuldade que a gente sempre teve, eu como representante de grêmio escolar, era o entendimento entre professor e aluno. Antigamente tínhamos uma escola em que o professor chegava, sentava ou pegava um giz, ensinava aquilo lá, pouco explicava. Hoje você tem professor que interage, o aluno tem possibilidade de perguntar mais, interagir mais. Hoje você tem internet. Muitas dúvidas são tiradas através da internet. Então acredito que dentro da sala de aula, hoje, já melhorou muita coisa, mas isso não significa que não possa melhorar mais, ainda pode melhorar muita coisa. E eu digo a você, com muita humildade, que eu preciso aprender mais, porque tem coisas que a gente sabe que tem que se aprofundar mais. Mas no que a educação precisar de mim, vou ajudar. No que eu puder ajudar a juventude, para estarmos dando realmente um ensino de qualidade, vou ajudar.

Como tem sido suas primeiras semanas dentro da Câmara?

Estamos estudando muito o Regimento Interno, Lei Orgânica. Ainda tem muita coisa que estamos aprendendo. Tínhamos o convívio com o povão lá fora. Hoje a gente veio para a área mais burocrática do negócio, e a gente quer aprender. Agora digo para você: sou uma pessoa que aprende rápido. Você me ensina uma coisa hoje, amanhã não precisa dizer de novo. Eu quero, nesses três primeiros meses, aprender. Posso ser caladão nesses três meses, mas é que eu preciso aprender, eu preciso botar o pé e saber onde estou botando meu pé. Daqui a pouco, quando a gente começa a conversar olhando no olho, você vai pensar: “quando ele diz uma coisa, puxa um assunto, está seguro de tudo que está dizendo”.

Qual sua expectativa para essa legislatura?

Acho que vai ser uma das melhores. Acho que temos, se não me engano, sete ou oito nomes novos, e espero que seja melhor. Tem um monte de veterano aí e o que for de bom vamos extrair, vamos aprender. Sei que não trabalhamos com pessoas perfeitas, mas tem muita gente aqui que eu posso dizer que, de A a Z, eu gosto de todos, respeito todos e que quero aprender com cada um. No meu convívio diário eu gosto de absorver o melhor das pessoas, o melhor a gente vai aprendendo, o que não aproveita a gente deixa lá.

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