Atualizado em: 28 de setembro de 2021 às 16:23h
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“Desde pequeno o trabalho anda comigo” – Entrevista com Capitão Alencar

Início “Desde pequeno o trabalho anda comigo” – Entrevista com Capitão Alencar

À primeira vista sério. Mas, já nas primeiras palavras, tranquilo e sensato. E à medida que a conversa continua e histórias de sua vida são contadas, percebe-se um percurso de labutas e de conquistas. De chegar em Petrolina com apenas oito meses de idade, vindo em um pau de arara, a tornar-se vereador da cidade, muitas experiências o marcaram: trabalho na feira, catador de metais para vender em ferro velho, vendedor em lojas, policial militar, professor e outros. Capitão Alencar, nessa entrevista para a Câmara de Vereadores de Petrolina, acaba por mostrar como os percalços e as vitórias pelos quais passou refletem bem suas bandeiras no poder legislativo.

Você nasceu em Parnamirim. Como foi a vinda para Petrolina?

Quando cheguei em Petrolina, eu tinha apenas oito meses. Era de colo, viemos de Parnamirim num pau de arara. Naquela época, em 1977, a seca estava assolando o nosso sertão e minha mãe e meu pai tinham umas criações lá no interior de Parnamirim, em Vargem Redonda, e de lá viemos: meu pai, minha mãe e dez filhos – o mais novo nasceu em Petrolina. Chegamos na Vila Eduardo e não tínhamos casa própria, morávamos de aluguel em uma casa sem água e sem energia. Meu pai estava trabalhando na Indústria Coelho como vigilante e era só esse dinheiro, um salário mínimo, para sustentar os dez filhos e minha mãe. Minha mãe e meus irmãos me contam que foi uma época de bastante sofrimento, pois não tínhamos banheiro na casa, tendo que usar um buraco no quintal, a água pegávamos com a vizinha e à noite usávamos candeeiro. Foi um momento muito difícil, mas superado, graças a Deus.

Vocês ficaram nessa casa por muito tempo?

Meu pai se inscreveu para as casas da Cohab II, foi sorteado e fomos morar lá em 1979. Foi um financiamento curto, como é hoje o Casa Verde e Amarela. Temos muito a agradecer aos Coelhos. Meu pai sempre foi eleitor deles e sempre agradecido por essa casa.

E já começou a trabalhar desde cedo?

Durante a minha infância, já com 10 anos de idade, até meus 15 anos, sempre fui trabalhando, ajudando também no sustento da família. Catava lata, osso, cobre, ferro, alumínio e vendia num ferro velho na Areia Branca, chamado Seu Ireno. A gente ajudava a família, ajudava no sustento da casa. Vendia bolo e dindim nos colégios, fazia carrego (aqueles carrinhos de mão) nas feiras, levando as compras do povo. Desde pequeno que o trabalho anda comigo. Não por querer, pois a criança quer é brincar, mas por necessidade e pedido dos pais para que todo mundo se ajudasse e a família se constituísse. Aquele menino, quando já tinha algum músculo mais forte, uma força, era colocado para trabalhar.

Como foi para estudar durante esse período?

Minha mãe e meu só tiveram ao equivalente à antiga 4ª série. São alfabetizados, mas praticamente não tiveram estudo. Eles cobravam muito para que estudássemos. Lembro muito que meu pai tinha uma sandália de couro grossa e um chicote de cavalo e se ele pegasse a gente dentro de casa fazendo estripulias, ele batia na gente e o que ele mais dizia era “vá estudar!”. E corríamos para o quarto e íamos estudar; se não estudasse, era “peia”. Assim… naquela época a gente chorava, se irritava, mas hoje sei que valeu a pena. Até me emociono ao falar… No Moisés Barbosa, onde estudei até a 8ª série, eu era um dos melhores alunos da minha sala. Tive esse destaque. Já no Otacílio Nunes, entre o 1º e 3º anos, tive que começar a trabalhar muito, em uma lanchonete no Auxiliadora. Minhas notas começaram a piorar um pouco, pois eu trabalhava o dia todo e à noite eu estudava. Não tive o mesmo destaque da época do Moisés, mas foi tranquilo.

E para entrar na Polícia Militar?

Em 1996 tive meu primeiro emprego com carteira assinada, que foi no Mercadinho dos Tecidos, como vendedor. Aí depois passei por ABC Eletro, Insinuante, Esplanada. Quando voltei à Insinuante, eu levava apostilas para eu ler no trabalho. Atendia o pessoal e quando não tinha gente eu sentava e lia as apostilas, pois tinha feito a inscrição para a Polícia Militar. Eu ainda não tinha tanto afeto à carreira, era mais pela garantia de emprego. Na época, como vendedor, eu ganhava praticamente a mesma coisa que um soldado, que tinha um salário bem baixo. Mas fiz o concurso e consegui passar. Fui para Recife, fiz o curso e, logo lá, fomos orientados que os formandos teriam que fazer o curso da CIOSAC (Companhia Independente de Operações e Sobrevivência na Área de Caatinga), porque o coronel da época, o comandante do interior, queria aumentar o quadro da CIOSAC e exigiu que os alunos mais novos fossem. Essa exigência gerou um tumulto dentro da própria polícia, muitos soldados recém-formados denunciaram à imprensa e foi muito falado no estado por causa dessa imposição de fazer o curso, que era muito rigoroso, muito exigente. Compramos uma parafernália de coisas: cordas, alicates, cantil. Quando cheguei em Serra Talhada, no local do curso, o coronel voltou atrás por conta da pressão da imprensa e do governador e só ficou para fazer o curso quem realmente quisesse. Como eu já estava lá e tinha comprado um monte coisa, resolvi ficar. Quase perdi o couro [risos], mas trouxe o curso no peito e passei para a CIOSAC e fiquei por três anos.

Depois desse curso, como foi seu percurso na polícia?

Depois vim para Petrolina, estudei mais e passei para o CFO (Curso de Formação de Oficiais) na Bahia em 2004. Fiquei três anos, me formei (pois é um curso superior também) e voltei para Juazeiro. Fiquei bem classificado, em 23º de uma turma de 176 pessoas, porque estudava bastante, dia e noite. Eu tinha que estudar porque os melhores podiam escolher o local que queriam ir e assim fiz para voltar a Juazeiro. Comandei o policiamento de Sento Sé por um ano e meio, depois voltei para o 3º Batalhão, desempenhei algumas funções como subcomandante de companhia, e logo depois fui para o Comando Regional Norte e, já formado em Direito, passei a exercer a função de corregedor adjunto. Essas questões de apuração de processo de policiais, denúncias de abuso, desvios, passavam por mim. Até de exclusão de policiais eu passei a compor uma comissão. Inclusive fui presidente de uma comissão que expulsou um policial da CPAC (Companhia de Caatinga) por conta de um homicídio.

Como surgiu a ideia de ir para o legislativo?

A vontade de ser vereador surgiu justamente da necessidade de ajudar pessoas que passam necessidade. Como capitão, como policial militar, não tinha como ajudar. A ajuda era um pouco freada. Mas agora, como parlamentar, a gente consegue mais pessoas. Eu sempre tive esse desejo dentro de mim, esse querer de ajudar as pessoas. Minha esposa sempre diz que eu tenho um coração bom demais. Como vim lá de baixo, de uma família pobre, carente, penso muito no outro. Quando a gente passa dificuldade, não quer ver outro passando.

Me fala um pouco sobre sua história no futebol.

Todo mundo diz que as pessoas nascem com dom. Lá de casa somente eu, meu irmão, chamado Esquerdinha, que também já faleceu, e o mais velho, Edinaldo, que demos certo no futebol. De oito irmãos homens, três nasceram com dom. Desde os meus seis ou sete anos que estou com a bola de lado, jogando, brincando, chutando. Então desde novo despertei em mim essa vontade de jogar. Já novinho, a partir dos 10 anos, eu já participei de um dos melhores times de Petrolina, o Internacional de seu Zenildo. Ele era um senhor que tinha uma condição financeira boa, gostava muito de futebol e tinha um time que era bem organizado. Tinha treinador, campo de futebol, treinamento físico e tático, uniforme de treino e de jogo, viagens. Eu devo muito a seu Zenildo porque todo jogador tem sua base e a minha foi de seu time, pois aprendi muita coisa, como a se posicionar taticamente, bater na bola, marcar. Depois fui passando por outros times. Fui camisa 10 no Petrolina, joguei no Náutico, com Cupira, no Palmeiras, com Joaquim, entre outros.

Você também atuou como professor de Direito.

Eu fiz Direito e me apaixonei pela área. Me formei em 2012. Tive um professor chamado André Cerqueira, que hoje é defensor público na Bahia. Me encantei pelos ensinamentos dele, com uma didática muito boa. Eu pensava que queria ser professor, igual a ele. Ele é muito bom. Me formei, passei na OAB e fiz pós-graduação. Em 2016 abriu um concurso para a Facape (Faculdade de Ciências Aplicadas e Sociais de Petrolina) e perdi por conta da pontuação dos títulos. Depois fiz mais uma pós-graduação, em Direito Penal Militar. Em 2017 concorri novamente para o cargo de professor na Facape e passei.

Antes disso eu já dava aula no cursinho Meta. Fui convidado pelo professor Pedro Norberto, pois ele soube que eu dava aula de Direito Penal Militar no 3º Batalhão em Juazeiro. Uns alunos meus falaram para ele que gostavam muito das minhas aulas e ele me convidou. Fiquei no Meta menos de um ano, porque logo passei na Facape, onde fiquei por dois anos. Logo depois passei na FTC, mas fiquei apenas seis meses, pois o salário de lá é muito ruim. Falei para os alunos que eu ia sair, eles até se chatearam, mas eu disse que não dava porque, embora eu ame a docência, o salário era muito pouco.

Ainda fiz mais uma pós-graduação, em Gestão Pública Municipal, tive como professor Enos André de Farias e, após o curso, ele me convidou para organizar um livro, que hoje já está publicado. É uma compilação de artigos que recebemos dos alunos, que fizeram suas monografias. Antes desse livro, eu já tinha publicado um artigo em outro livro, com o tema do meu trabalho de conclusão de curso.

Você continua na área acadêmica?

Estou fazendo mestrado na UNEB (Universidade do Estado da Bahia). Meu projeto é sobre a educação ambiental nos parques eólicos. Por conta da campanha para vereador e também pelo início da legislatura na Câmara de Petrolina, perdi o prazo da qualificação, mas entrei com o pedido de prorrogação.

Antes de começarmos essa entrevista você disse que era professor por amor. Qual é o amor pelo ensino?

A maior satisfação do professor é ser elogiado por uma aluno. Não há salário que pague quando vem um aluno e te elogia e você fica mais próximo deles, como amigo também. Aquele calor, aquela satisfação de chegar na sala de aula e ser bem recebido. Esse vínculo com as pessoas é bom demais. Eu gosto muito de sala de aula.

Você disse que o legislativo era o melhor caminho para você continuar ajudando as pessoas. Quais são, então, suas principais pautas nessa legislatura? 

As minhas principais pautas, que chamam de bandeiras, assim como defendi na campanha, é saúde, segurança, esporte e educação. Não que sejam somente essas, mas são as principais. Já tenho projetos nas minhas principais bandeiras. Na saúde tenho projeto para que idoso seja atendido por telefone para marcação de consultas, na educação para premiar os melhores alunos e professores de cada escola, no esporte já foi aprovado o dia do esporte amador, na segurança há projeto para que a prefeitura, através da guarda municipal, possa catalogar todos os dados referentes às ocorrências realizadas pela guarda para que possamos aferir a macha criminal em Petrolina, para sabermos onde há mais homicídios, mais roubos e, assim, possamos dispor melhor o efetivo. Temos a ideia de dar um prêmio por ano, como um 14º salário, à guarnição da guarda municipal que desempenhar melhor suas funções durante o ano, como resolução de ocorrências, tempo de chegada nas ocorrências, elogios. Junto com o jurídico, vimos que esse é um tipo de projeto que não compete ao legislativo, pois onera o município, mas estamos conversando para que o executivo faça a proposta e a gente possa votar e aprovar.

Nesses primeiros meses de legislatura, qual é a sensação de atuar como parlamentar?

Primeiramente, me sinto realizado, pois é um desejo que eu tinha desde 2016, quando perdi as eleições e fiquei como 1º suplente. Tinha feito apenas três meses de campanha e consegui 1.410 votos, uma votação exorbitante para tão pouco tempo. Hoje, já como vereador eleito, com 1.539 votos, digo que estou muito satisfeito com a função que estou exercendo e estou entendendo cada vez mais o funcionamento da Câmara. A questão com os pares não é fácil, pois há muita disputa por espaço e há pares que muitas vezes pensam mais em si do que na Câmara e no clima de harmonia dentro da casa. Então eu percebo e muitos já me disseram para eu não me iludir, pois todo mudo só quer ver o seu lado, ninguém vai pensar em você não. Faça suas conquistas por si próprio. Não espere que vereador vai querer te ajudar. A gente entende, é complicado, mas, realmente, olhando por outro lado, é a sobrevivência dos vereadores. A gente só exige que haja respeito, que respeitem as diferenças, respeitem os espaços.

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